quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Palácio Baldaya
Durante mais de trinta anos percorri o mesmo caminho de casa ao trabalho e vice-versa. Quando o tempo estava bom, parte dele, era feito a pé, umas vezes pela estrada principal, outras, pela rua paralela. Umas vezes acompanhada, outras, sozinha, divagando pela minha vida, pelos sonhos desfeitos e pelos outros, os sonhos mal feitos.
Quando caminhava pela estrada principal, entretinha-me a ver as montras, principalmente as de pronto-a-vestir. Vaidosa? Sim, talvez. Sempre gostei de me ver bem vestida, mesmo que fosse, e seja, com roupa de baixo custo.
E passava… e passei… centenas de vezes por aqueles muros, por aqueles portões, por ambos os caminhos, os encontrava, e nada me diziam. Eram apenas muros e portões de mais um laboratório, que tal como todos os laboratórios fazia investigação, este, particularmente este, fazia investigação veterinária.
Deixei de por diariamente lá passar, também o laboratório deixou de lá funcionar.
Continuei a passar esporadicamente, nem sequer ligava aos pormenores do edifício, quase abandonado ao tempo, que continuava a passar, até que numa das vezes reparei que andavam a pintar portas e janelas, e mais obras lá por dentro. Casualmente no dia 29 de Abril de 2017, passei e a porta que dá para a tal estrada principal, estava aberta. Entrei, foi o primeiro de muitos dias em que lá entrei e entrarei. As obras foram progredindo, até se encontrar, finalmente aberto ao público, para as mais diversas situações, entre elas, as tertúlias e os saraus poéticos, da empresa In-Finita. De quinze em quinze dias, lá estamos reunidos para mais uma manhã de amizade e poesia.
E, as antigas instalações do laboratório nacional de investigação veterinária, era afinal um palácio, que em boa hora foi recuperado pela junta de freguesia de Benfica.
Hoje, já com cara lavada, está aberto todos os dias, para gaudio de quem por lá passa.
Majestoso e imponente o Palácio Baldaya.
Maria Antonieta Oliveira
AVOZITA
29-08-2018
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Chamava-se Maria
Chamava-se Maria, mas não gostava que a chamassem de Maria.
Naquela época, eram tratadas por Maria, mesmo que o seu verdadeiro nome, não fosse Maria, as sopeiras, as criadas de servir, as chamadas, hoje, de, empregadas domésticas.
Quem a tratava de Maria sabia bem porque o fazia. Era uma forma desprestigiante de a menosprezar. E a Maria que era menina, sentia-o. Sentia-se.
Era uma menina introvertida, envergonhada e triste.
A menina, a Maria, foi crescendo sempre com a sua auto estima muito em baixo, sentindo-se sempre inferior a quem a rodeava. Desde muito menina que lhe foi incutida essa inferioridade.
E a menina cresceu mais e aos poucos foi-se libertando desse sentimento. Custou. Custou-lhe muito mas conseguiu.
A Maria menina – mulher, ultrapassou todos os seus receios , tornou-se confiante em si mesma, e hoje a Maria, chama-se
MARIA.
Maria Antonieta Oliveira
AVOZITA
16-08-2018
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
Doutores e Outros Senhores
Doutores e outros senhores!
Ter ou não ter um canudo, seja por mérito, ou por aquisição, não faz com que uma pessoa seja mais ou menos culta, que outra que não tenha tido a possibilidade de o obter, por mérito ou por aquisição. No entanto, há quem pense que sim.
Acho imensa piada aos que quando se apresentam, antecedem o nome com o canudo, por exemplo – sou o doutor fulano de tal… sou o engenheiro fulano de tal… e por aí fora. Também nos representantes das forças armadas, há esse tipo de pessoas, em que o canudo antecede o nome – sou o general fulano de tal… sou o comandante fulano de tal… etc. etc.
Acho graça a este tipo de pessoas. E não é que já deixei algumas a olharem para mim sem palavras para me responderem. É verdade, podem crer.
Havia um certo doutor, não sei em que era doutorado, mas apelidava-se de – eu sou o doutor fulano de tal… ora bem, este senhor de cada vez que entrava na loja do meu marido, sem cumprimentar, dizia – diga os senhor Victor que está aqui o doutor fulano de tal, isto aconteceu uma vez, duas vezes, à terceira vez, assim que ele entrou e antes que dissesse que era o doutor fulano de tal, eu disse, depois de o cumprimentar, um momento eu chamo já o doutor dos sofás. De olhos esbugalhados e sem palavras, limitou-se a esperar que o doutor dos sofás aparecesse. Voltou lá mais vezes mas, nunca mais se apelidou de doutor.
Se todos estes doutores e outros senhores, apanhassem pela frente, de vez em quando, uma Antonieta, talvez se habituassem a deixar em casa, os ditos canudos, sejam eles por mérito ou por aquisição.
Tenho dito!
Maria Antonieta Oliveira
AVOZITA
09-08-2018
domingo, 5 de agosto de 2018
Coitado do S. Pedro
Oh S. Pedro, como eu te compreendo!
Tramaste-me, eu sei, mas já te perdoei. Que confusão deve ir na tua cabecinha, mandaste-nos tempo ameno e todos refilámos, alguns até ajoelharam pedindo chuva, pois a seca era inevitável, as albufeiras estavam vazias, as barragens também, enfim, tínhamos que fazer contenção nos gastos de água. Mandaste chuva, já fora de tempo, mas mandaste, todos reclamámos, pois até as minhas mini férias estragaste. Pedimos tempo bom, sol e calor para umas férias “relaxadas” nas lindas praias do nosso Portugal.
Ouviste e mandaste o que pedimos, sol e calor.
E agora do que reclamamos?!
Agora todos reclamamos o calor intenso, fora do nosso controle. Intenso! Demais! É que assim nem dá para sair de casa. E a praia? Pois é, só mesmo dentro de água.
Oh S. Pedro, não queremos tanto calor. Espera, vai devagar, não mandes ainda, chuva e frio, ainda quero passear à beira mar.
Coitado do S. Pedro, como eu o compreendo.
Maria Antonieta Oliveira
AVOZITA
05-08-2018
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